Ensino De Qualidade

27-10-2010 17:27

 Boa Vista do Tupim mostra como alcançar o ensino de qualidade

As lições são simples: investimento nos professores e atenção individualizada aos alunos

Priscilla Borges, enviada especial a Boa Vista do Tupim (BA) 
25/08/2010 07:00

Os rostos animados dos alunos nas salas de aula da Escola Cora Ribeiro, localizada no bairro mais pobre de Boa Vista do Tupim, não estão relacionados a nenhum evento especial no colégio. Não vai ter festa ou passeio no município baiano localizado a 330 quilômetros da capital Salvador. Os alunos terão aulas normais. Quatro horas. Terão de ler, fazer tarefa, escrever, aprender. Para eles, nada disso é sacrifício. É privilégio. Em pouco tempo, o município deu um salto positivo na nota que mede a qualidade do ensino.
“Eu gosto muito de estudar, ler, aprender. Eu amo ler, leio para todo mundo. Gosto dos meus colegas, da professora, da estagiária, do porteiro. Gosto de ver todos felizes”, afirma a pequena Mikaelly Lopes dos Santos, de 8 anos. Ao lado dos colegas Ronielle da Silva e Iara Rosa Lima, ambos de 8 anos, ela resume o que é visível: estudar também é diversão ali.
A escola não tem parquinho, nem para laboratório de ciências ou de informática. As carteiras e as mesas não estão novas, mas nada disso impede que as salas de aulas sejam aconchegantes e que os professores tenham vontade e compromisso em ensinar cada aluno.

Trabalhos das crianças e livros enfeitam as paredes coloridas das salas, com cerca de 15 a 30 alunos. Em todas, há um tapete no canto, cheio de almofadas, onde fica o cantinho da leitura. Os livros são pendurados em um varal, que faz as vezes de estante. Quando as crianças terminam de ler as obras, trocam por outras na “biblioteca itinerante”, um carrinho de mão com o acervo do colégio.
Além de circular nas salas de aula, a biblioteca ambulante também percorre as ruas da comunidade, onde muitas crianças lêem para os adultos. “Os pais não dão conta de ensinar os filhos. Então, quando eles precisam de ajuda, a gente organiza termos de compromisso com os pais. Eles mandam o filho para a escola no horário contrário ao das aulas, para o reforço”, conta Clebiana Nascimento Leite, coordenadora pedagógica.
Lá, não há evasão das crianças. “A gente vai à casa delas com o Conselho Tutelar, se for preciso”, garante Clebiana. A professora Nilza Silva dos Santos acredita que a atenção individual dada aos alunos é um dos segredos do sucesso. “Dá mais trabalho. Mas as atividades diferenciadas para cada um e o incentivo à leitura são importantes para eles aprenderem. Eles não acham cansativo ler”, analisa.

O iG percorreu, no início do mês, mais de 1.000 quilômetros pela Bahia, Estado que amarga algumas das notas mais baixas do Brasil no índice que mede a qualidade da educação brasileira para saber quais são as variáveis que influenciam o sucesso ou o fracasso de estudantes, escolas e municípios e não aparecem nas estatísticas. Depois de mostrar as dificuldades enfrentadas pelos municípios que têm as piores notas do País – são pobres, não oferecem biblioteca, espaços culturais, atividades esportivas ou de lazer – o iG mostra nesta quarta-feira as soluções encontradas por Boa Vista do Tupim.

Mudanças de hábitos

Lá, a leitura se tornou obsessão desde 2007, quando o Ministério da Educação fez a primeira divulgação do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb). Criado para avaliar a educação da rede pública, o índice combina as notas de português e matemática dos alunos da 4ª e da 8ª séries do ensino fundamental na Prova Brasil e a taxa de aprovação.
O primeiro cálculo apresentado pelo MEC foi retroativo. Mostrou as notas das escolas, municípios e Estados em 2005, com base nas provas e nos dados daquele ano. Boa Vista do Tupim ficou entre os piores do País, com nota 2,2 na 4ª série e 2,3 na 8ª. Professores e gestores recordam que a média chocou a todos. Eles não sabiam que ensinavam mal.
A partir daí, o município adotou estratégias para mudar a realidade educacional das escolas. Em 2009, chegaram próximos da excelência esperada pelo MEC para 2022 para a rede nacional. Nessa data, a expectativa é que as escolas tenham nota 6,00, considerada o desempenho de países desenvolvidos. Boa Vista do Tupim teve nota 5,8 na 4ª série. Na 8ª, o desafio ainda é maior. A nota foi 3,1.
As Escolas Cora Ribeiro e Abraham Lincoln superaram todas as expectativas e alcançaram nota 6,5. “Todos têm de estar comprometidos e, se não dermos subsídio aos professores, não adianta. Não podemos responsabilizar apenas o professor pelo fracasso do aluno. Existe uma parceria entre o docente, o coordenador e a secretaria”, afirma o secretário Vespasiano Delezott Pimentel de Sá.
A primeira atitude para mudar a educação do local foi investir nos professores. Quem não tinha graduação foi estimulado a fazer. Dos 340 docentes do quadro, 80% possuem diploma ou estão concluindo o ensino superior. Depois, procuraram parceiros para ajudá-los a criar programas que atualizassem conhecimentos e práticas pedagógicas dos profissionais.
Os supervisores, diretores e o próprio secretário têm de fazer cursos de capacitação. Em cadeia, os supervisores treinam os coordenadores pedagógicos, que depois repassam a formação aos professores. Os encontros com os docentes são semanais, no turno oposto ao das aulas, dentro do período de trabalho deles.
O segundo ponto é dar atenção individual aos alunos. A cada mês, os professores fazem um diagnóstico de cada um para verificar a aprendizagem em leitura, escrita e matemática. A professora faz, por exemplo, ditados individuais com as crianças e observa as dificuldades delas na hora em que aplicam os testes. Depois, discute como saná-las com os coordenadores pedagógicos. O iG acompanhou uma prática com a aluna Michelly Amorim de Jesus, aluna do 1º ano (veja o vídeo ao lado).
Para Adalberto Mário Bispo dos Santos, 8 anos, estudar é prazeroso. Ele adora a escola e os professores. A mãe, que só concluiu até a 4ª série, o ajuda a perceber que estudar é fundamental. Compra livros para ele quando pode. Lia histórias quando ele era pequeno. Os livros que possui, guarda no guarda-roupa. Mesmo sem espaço adequado para estudar, ele garante: “Só tiro nota 10”.

Mais desafios

O município de 18 mil habitantes possui muitos desafios ainda. Ao todo, 3.013 famílias sobrevivem do Bolsa Família. A prefeitura é a grande empregadora. Faltam quadras de esporte, atividades de cultura e lazer e a biblioteca municipal precisa melhorar. As escolas também precisam de reformas e mais espaço.
Mas Elielma Oliveira, coordenadora pedagógica, resume o sentimento de quem cuida da educação local. “As coisas mudaram quando todos passaram a avaliar o próprio trabalho. Queremos mais. E vamos usando com criatividade o que temos em mãos”, diz.

Fonte: http://ultimosegundo.ig.com.br/educacao/boa+vista+do+tupim+mostra+como+alcancar+
o+ensino+de+qualidade/n1237759600193.html